Cotidiano

YOM HAZIKARON | A HOMENAGEM AOS SOLDADOS QUE MORRERAM POR ISRAEL

O Yom HaZikaron do ano judaico de 5778 começa na desta terça-feira, 17 de abril, e terminará no entardecer de amanhã, quarta-feira, 18 de abril. Neste dia em que o povo judeu faz um tributo à memória dos soldados que deram suas vidas para defender o Estado de Israel, NOTÍCIAS DE SIÃO compartilha o emocionante depoimento de uma mãe cujo filho foi covardemente assassinado por terroristas do Hamas. Um relato emocionante.

O TESTEMUNHO DE ESTHER WACHSMAN

Meu nome é Esther Wachsman, eu nasci em 1947 na Alemanha, num DP Camp [campo de sobreviventes do Holocausto]. Meus pais escaparam dos fornos crematórios da Alemanha nazista, mas todos os seus familiares foram mortos. Nós – meus pais, minha irmã (que tinha sido escondida por uma família católica durante a guerra) e eu – imigramos para os Estados Unidos em 1950.

Eu cresci como filha de sobreviventes e acabei por me tornar uma verdadeira PJA, uma Princesa Judia Americana, mas uma nuvem de depressão, de profunda tristeza e melancolia, pairava sobre nossa casa.

Na típica experiência da “Síndrome da Segunda Geração”, eu era a única razão de existir dos meus pais. Suas esperanças, seu futuro, todas as suas expectativas estavam focadas em mim. Eu sabia que, sem nunca me terem dito nada, que eu tinha que ser a mais inteligente, a mais bonita, a mais popular, a mais obediente e a melhor de todas as crianças.

Aquilo foi um fardo pesado demais tanto para uma criança, como para uma adolescente, para uma jovem e depois para uma esposa e mãe. Eu passei a exigir excelência e perfeição de mim mesma – e mais tarde, dos meus filhos.

Em 1969 imigrei para Israel – fiz aliya para Jerusalém, onde frequentei a Universidade Hebraica. Fiz meu mestrado em história, especializando-me no tema do Holocausto. Meus pais eram sionistas e os únicos parentes que lhe restavam viviam em Israel. Vim para estudar com suas bênçãos, e quando conheci meu futuro marido percebi que era aqui, em Jerusalém, que eu queria criar minha família. Não sei se meus pais ficaram felizes com esta ideia.

Mas eu tinha algo comigo. Eu queria fazer parte da história da nossa antiga/nova pátria. Eu queria criar meus filhos como judeus orgulhosos, independentes e fiéis em sua terra natal depois de 2.000 anos de exílio. Eu não podia ficar simplesmente orando pelo “Retorno a Sião” e pela “Edificação de Jerusalém”, se uma simples passagem de avião era suficiente para responder a essas orações.

Então, casei-me com meu esposo Yehuda, em 1970, e entre 1971 e 1986 tivemos sete filhos. Nossos filhos foram criados com um amor triplo – ao seu povo, à sua terra e à sua herança, a Torah. Nossas vidas estavam completas, meus sonhos realizados e eu me senti privilegiada por poder viver minha vida e criar meus filhos nesta nossa Cidade Sagrada, nesta Terra que nos foi dada por Deus.

Eu ensinei inglês na Escola Secundária da Universidade Hebraica por 28 anos, meus filhos cresceram, frequentaram uma yeshivot [escola religiosa judaica] e, com o tempo, serviram ao seu país, usando orgulhosamente o uniforme do exército judeu. Como eu estava orgulhosa – aquela imigrante judia do Brooklyn era mãe de soldados de Israel!

Meus dois filhos mais velhos, que receberam os nomes dos avôs que morreram no Holocausto, serviram na [histórica] Brigada Golani. Quando chegou a hora de meu terceiro filho, Nachshon, ser convocado, ele queria superar seus dois irmãos mais velhos e se voluntariou para uma unidade do comando de elite da Brigada Golani. Seus irmãos zombavam dele, pois ele era mais baixo e mais magro do que os grandes soldados do batalhão, mas ele perseverou e se tornou um soldado da Golani, e era o orgulho de seus irmãos e de toda a sua família.

Nachshon não recebeu o nome de nenhum ancestral. Nós escolhemos este nome porque ele nasceu no último dia da Páscoa, justamente no dia em que a leitura da Torah fala sobre os judeus cruzando o Mar Vermelho, mar que Deus prometeu que se tornaria terra seca. [De acordo com o Talmud], Nachson, o filho de Aminadav, chefe da tribo de Yehuda, foi o primeiro a pular na água, expressando assim completa fé e crença em Deus e à Sua promessa de que a água se transformaria em terra seca. Depois, todos os Filhos de Israel o seguiram. Foi também nessa época do ano, na Páscoa de 1948, que aconteceu a Operação Nachshon – a operação que abriu o caminho para Jerusalém. Sentimos que esse nome trazia consigo todas as nossas ideias – fé e crença em Deus e amor ao nosso povo e à nossa terra.

Nachshon nos deixou orgulhosos, assim como todos os nossos filhos que, graças a Deus, cumpriram o significado dos seus nomes.

Depois de ter servido no exército por pouco mais de um ano, passando duas temporadas no Líbano, na sexta-feira, 7 de outubro de 1994, Nachshon teve direito a uma semana de folga e chegou em casa pouco antes do início do shabbat. Na noite do sábado, ele recebeu um telefonema do exército informando que no dia seguinte, domingo, ele deveria participar de um curso no que seria realizado no Norte do país, um curso onde ele e outro soldado da sua unidade aprenderiam a operar um veículo militar especial e em um único dia-curso ele receberia uma licença para operar aquele veículo.

Nachshon viu nisso uma oportunidade única e conseguiu carona com um amigo para fazer o curso no Norte. Ele nos deixou no final da noite de sábado dizendo que voltaria para casa na noite seguinte.

Nachshon não voltou para casa no domingo. Talvez, por conta do meu passado de filha superprotegida, eu era do tipo de mãe que queria sempre saber onde meus filhos estavam e quando voltariam para casa. E se algo de inesperado acontecesse, ou alguma mudança de planos, eles sempre me informavam.

Quando, à meia-noite, Nachshon não ligou nem chegou em casa, temi pelo pior.

Nós notificamos as autoridades militares, rastreamos os seus movimentos, falamos com seus amigos do exército. Descobrimos através de um amigo que assim que terminou o curso ele havia sido deixado no entroncamento Bnai Atarot – uma das áreas mais povoadas do centro de Israel – onde ele podia pegar um ônibus ou pegar uma carona (como todos os soldados fazem) para voltar a Jerusalém. Este amigo foi o último a vê-lo.

Na segunda-feira nós enviamos grupos de buscas para a área onde ele tinha sido visto pela última vez – neste momento o exército ainda estava despreocupado, fazendo apenas visitas a hotéis e resorts da [cidade turística] de Eilat, pois achavam que ele tinha fugido para descansar.

O fato de eu ter dito que esta hipótese estava completamente fora de questão, foi encarado pelos representantes do exército como apenas uma atitude típica de uma mãe judia. Para mim, na segunda-feira, meu filho estava morto.

Na terça-feira, fomos contatados por uma emissora de TV que nos disse que haviam recebido uma fita de vídeo de um fotógrafo da Reuters onde meu filho aparecia como refém numa casa de terroristas do Hamas. Eles me disseram que estavam indo para nossa casa para nos mostrar o vídeo antes de transmiti-lo para toda a nação e para o mundo.

No vídeo, meu filho aparecia com as mãos e os pés amarrados, com um terrorista cujo rosto estava coberto pelo [tradicional lenço árabe] kaffiya, segurando o cartão de identidade de Nachshon. O terrorista disse o seu endereço residencial, o número de identificação e, em seguida, sob a mira de armas, pediram que Nachshon falasse. Ele disse então que havia sido sequestrado pelo Hamas, que [os terroristas] estavam exigindo a libertação do seu líder espiritual, Achmed Yassin, que se encontrava em uma prisão israelense, e também a libertação de outros 200 terroristas do Hamas. Se essas exigências não fossem atendidas, ele seria executado na sexta-feira às 20 horas.

Naquela época eu não pude me dar ao luxo de fraquejar. Todos nós nos mobilizamos para os próximos quatro dias – 24 horas por dia – para fazer tudo que estivesse ao nosso alcance para salvar a vida do nosso filho. Conversamos com o primeiro-ministro [Yitzhak] Rabin, que nos disse que não negociaria com terroristas, nem se entregaria a chantagens. Dissemos que Nachshon tinha cidadania americana e o presidente [Bill] Clinton interveio. Tanto [o Secretário de Estado] Warren Christopher, que estava na região, quanto o cônsul dos Estados Unidos em Jerusalém, Ed Abbington, foram para Gaza – onde se acreditava que Nachshon estava sendo mantido – e nos trouxeram mensagens de [Yasser] Arafat.

Arafat, de fato, ligou para nossa casa e nos disse que não deixaria pedra sobre pedra para localizar nosso filho e devolvê-lo a nós são e salvo.

Apelamos aos líderes mundiais em todos os lugares e aos líderes religiosos muçulmanos, os quais afirmaram inequivocamente, na mídia, que não deviam maltratar nosso filho.

E apelamos aos nossos irmãos – ao povo judeu em todo o mundo – pedindo que orassem por nosso filho. O Rabino Chefe de Israel destacou três capítulos do Livro de Salmos para serem lidos todos os dias, e pessoas por todos os lados, inclusive crianças em idade escolar que nunca tinham orado antes, o fizeram por causa de uma preciosa alma judaica.

Eu pedi a mulheres de todo o mundo que acendessem no shabbat uma vela extra para o meu filho. Recebemos depois cerca de 30 mil cartas onde fiquei sabendo que milhares de mulheres que nunca haviam acendido velas no shabbat, naquele sábado fizeram isso pelo meu filho! De alguma forma ele se tornou um símbolo de filho, de irmão e de amigo de todos.

Na noite da quinta-feira, 24 horas antes do ultimato dado pelos terroristas, uma vigília de oração foi realizada no Muro das Lamentações. E na mesma hora, vigílias de oração foram realizadas em sinagogas, escolas, centros comunitários, praças e, sim, em igrejas, de diversas partes do mundo. Pessoas de boa fé em toda a parte esperavam, imploravam e oravam por Nachshon.

No Muro das Lamentações, espontaneamente, chegaram quase 100 mil pessoas! Ortodoxos chassidim, com suas sobrecasacas pretas e longos cachos de cabelo balançavam, rezavam e choravam lado a lado com jovens de jeans rasgados, cabelos com rabos-de-cavalo e brincos. Havia uma total unidade e solidariedade de propósito entre nós – religiosos e seculares, de Esquerda e de Direita, sefarditas e asquenazes, velhos e jovens, ricos e pobres – uma união sem precedentes nesta nossa sociedade infelizmente fragmentada.

Na noite de sexta-feira, no início do shabbat, falei com meu filho através da imprensa e implorei que ele que fosse forte, pois todo o nosso povo estava com ele. Nós nos sentamos na nossa mesa para a ceia do shabbat; meus olhos estavam grudados na porta, esperando que Nachshon entrasse a qualquer momento.

A esta altura nós não sabíamos que a Inteligência Israelense havia capturado o motorista do carro que levou Nachshon. Ele disse que os terroristas estava disfarçados [de judeu], usando kippah, gorros de caveira, disse que havia uma Bíblia e um [livro de orações judaicas] Siddur no painel do carro e que eles estavam ouvindo música [religiosa] chassídica no toca-fitas.

Não sabíamos que haviam descoberto pelo informante que Nachshon estava sendo mantido em uma aldeia chamada Bir Nabbalah, sob o domínio israelense, localizada a cerca de 10 minutos de nossa casa em Ramot. Não sabíamos que o primeiro-ministro Rabin havia tomado a decisão de lançar uma ação militar para tentar resgatar o nosso filho.

Na hora do ultimato, o general Yoram Yair – e não Nachshon – chegou à nossa casa trazendo a terrível notícia: A tentativa de resgate militar havia fracassado – Nachshon havia sido morto e o comandante da equipe de resgate, capitão Nir Poraz, também.

Naquele mesmo momento, milhares de pessoas, inclusive nossos filhos, retornaram às suas sinagogas após a ceia do shabbat para recitar os Salmos pelo resgate de Nachshon.

Nós então os chamamos de volta para casa e juntos ficamos todos sentados, estáticos, incrédulos, chocados e devastados pelo resto do sábado.

No sábado à noite, à meia-noite, enterramos o nosso filho.

Esse mesmo microcosmo do nosso povo chegou ao Monte Herzl à meia-noite do sábado para assistir ao funeral de Nachshon.

Aquele mesmo microcosmo de nosso povo que foi orar pelo resgate de Nachshon no Muro das Lamentações chegou ao Monte Herzl à meia-noite do sábado para assistir ao seu funeral. Muitos deles nunca haviam posto os pés num cemitério militar.

O meu marido pediu ao professor de Nachshon na escola judaica, o rabino Mordechai Elon, responsável pelo discurso fúnebre, que dissesse ao nosso povo que Deus havia ouvido as nossas orações e que havia recebido todas as nossas lágrimas.

A maior preocupação do meu marido ao enterrar o seu filho foi evitar uma crise de fé. E então ele pediu ao rabino Elon para dizer a todos que assim como um pai, que gostaria de dizer sempre “sim” a todos os pedidos de seus filhos, às vezes tem que dizer “não”, mesmo que as crianças não entendam as razões do “não”, nosso Pai Celestial havia ouvido nossas orações e, embora não entendêssemos por quê, Sua resposta foi “não”.

A nação inteira chorou conosco. Milhares de pessoas vieram para nos confortar, embora ninguém consiga confortar um pai enlutado. A rádio israelense começou as transmissões de todas as manhãs com as palavras: “Bom dia Israel, estamos todos com a família Wachsman.”

Comida e bebida foram entregues sem parar em nossa casa. Motoristas de ônibus e táxis que traziam pessoas de todos os lados do país, faziam questão de expressar suas condolências, deixavam seus veículos estacionados e se juntavam aos passageiros em nossa casa. Essa união, solidariedade, carinho, compaixão e amor com que fomos banhados nos deu forças e encheu nossos corações de amor por nosso povo.

Depois do Shiva [o período de luto judaico], todos retornamos às nossas rotinas. Nosso filho que acabara de sair do exército foi para a Universidade Hebraica, um outro voltou para o exército, dois outros retornaram para [a escola religiosa] yeshiva e os dois gêmeos mais novos, que, que completaram oito anos exatamente no dia do funeral, voltaram para a escola.

Retomamos a rotina, pois é isso que o povo judeu sempre fez – reconstruímos após a destruição, recomeçamos novas vidas a partir das cinzas e do sangue da velha.

Eu tinha agora verdadeiramente um respeito pelos meus pais, que haviam perdido todos os seus familiares, que tinham mudado para uma terra estranha, com um idioma estranho e construíram uma nova família, uma nova vida.

Eu estava no meu próprio país, na minha própria pátria. Meu filho morreu usando o uniforme do seu país e – se Deus quiser – meus outros filhos também servirão orgulhosamente ao seu país.

Porque entre o meu povo onde habito, isso para mim é ainda um privilégio e uma bênção. Meu amor trino, pelo meu povo, pela minha terra e pela minha Torá nunca vacilou.

ANDS | OU NY

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