Antisemitismo

UMA VEZ MAIS A CULPA É DOS JUDEUS

Quando regimes autoritários, como é o caso daquele que hoje impera na Rússia, começam a ter problemas com a sua estabilidade interna ou externa, tentam sempre arranjar inimigos dentro e fora do país. No caso do czar Vladimir Putin, já necessita de ressuscitar temas e métodos claramente medievais.


Russos acusam judeus de terem assassinado a família de Nicolau II num ritual judaico

A VOLTA DA FÁBULA DO ASSASSINATO RITUAL

POR JOSÉ MILHAZES

A Igreja Ortodoxa Russa, pela voz de alguns dos seus altos dignitários, vem levantar novamente a questão do “assassinato ritual” de Nicolau II, último czar russo, da esposa e filhos. Na conferência “Processo do assassinato da família do czar: novas investigações e materiais. Discussão”, Tikhon, bispo de Egorevski, declarou: “Olhamos da forma muito séria para a versão do assassinato ritual. Mais, parte significativa da comissão da Igreja não tem dúvidas de que assim foi”.

Na noite de 16 para 17 de Julho de 1918, revolucionários comunistas, entre os quais havia alguns judeus, fuzilaram 11 pessoas na cidade de Ekaterimburgo, entre as quais estavam sete da família real.

Marina Molodtzova, representante do Comitê de Pesquisa da Rússia, anunciou que “a pesquisa planeja realizar uma investigação judicial psicológico-histórica para resolver a questão ligada nomeadamente ao caráter possivelmente ritual do assassinato da família do czar”.

É verdade que nem o bispo ortodoxo, que os órgãos de informação russos dizem ser o “confessor” de Putin, nem Marina Molodtzova pronunciaram a palavra “judeus”, mas qualquer cidadão russo minimamente informado compreende que ele se refere a esse povo.

Esta tese não é nova e foi denunciada por emigrantes monárquicos russos que fugiram da Rússia depois da revolução comunista de 1917. Nomeadamente, acusaram os assassinos de terem decepado as cabeças das vítimas e enviando-as para o Kremlin como prova de que tinham cumprido a missão. O fato de esse crime ter sido cometido sob a direção de um bolchevique judeu chamado Iakov Iurovski a mando de outro judeu, o líder comunista Iakov Sverdlov, é apresentado como uma espécie de “ritual cabalístico”.

Investigações forenses e científicas realizadas posteriormente vieram a desmentir essa tese. Depois de vários estudos realizados na Rússia e na Inglaterra com os restos mortais (incluindo crânios) de várias pessoas encontradas enterradas perto de Ekaterimburgo, o Comitê de Pesquisa da Rússia reafirmou, em 2015, que se tratavam dos restos mortais da última família real russa.

O historiador russo Andrei Zubov considera que essas acusações não têm sentido porque “o Judaísmo não conhece a prática dos assassinatos rituais e os sacrifícios humanos são considerados um crime grave na Torá”. Além do mais, ele chama a atenção para o fato de os comunistas, “sendo ateus aguerridos, não cometeram, nem podiam cometer assassinatos rituais”.

Porém, a Igreja Ortodoxa Russa, que elevou à categoria de santos Nicolau II e a sua família no meio de grande polêmica, continua com dúvidas sobre os resultados da investigação e apoia publicamente, ao mais alto nível, a tese do “assassinato ritual”.

Isto provocou uma reação imediata das organizações judaicas da Rússia. “O emprego de semelhantes expressões é indigno, não sei o que nelas há mais: ignorância, estupidez ou obscurantismo. Em qualquer dos casos, isso mostra a degradação da sociedade russa e exige uma reação por parte da Igreja e da direção do país”, declarou Borukh Gorin, porta-voz da Federação das Comunidades Hebraicas da Rússia.

Alexandre Boroda, presidente dessa organização, vai mais longe e recorda: “as acusações de assassinatos rituais realizados por chefes provocou numerosas vezes a centenas e milhares de vítimas”.

Tendo em conta as perseguições a que os judeus foram sujeitos no Império Russo e na União Soviética, seria de esperar uma reação clara do Kremlin, mas Vladimir Putin, através do seu porta-voz Dmitri Peskov, lava as mãos como Pilatos, considerando que esta questão não é da competência do Presidente.

“Essa questão não está na nossa ordem de trabalhos”, declarou Peskov.

À medida que se vai aproximando a data das eleições presidenciais russas, marcadas para Março de 2018, a propaganda tenta apresentar o Presidente Putin como o salvador da Rússia e do mundo face aos “inimigos externos e internos”, o que tem levado também o Parlamento a aprovar novas medidas contra os órgãos de comunicação estrangeiros, a pretexto de evitar “ingerências externas” no escrutínio.

ANDS | OBSERVADOR

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s